Falamos com frequência sobre tecnologia blockchain e sobre a transformação que ela vem trazendo para o mundo. O entusiasmo faz sentido.
Vemos pagamentos instantâneos no mundo inteiro, transações internacionais, acesso a novos instrumentos financeiros, organizações totalmente descentralizadas, ajuda humanitária sendo distribuída a pessoas deslocadas e muito mais.
Não há dúvida de que o ecossistema amadureceu nos últimos anos. Muitos casos de uso ganharam tração e muita gente foi impactada.
Mais recentemente, o entusiasmo cresceu nas comunidades. Não só pelos casos de uso, mas também por novidades como o lançamento do Soroban, da Stellar, e pelo próximo halving do Bitcoin, que se aproxima a cada dia e costuma trazer grandes oscilações de preço para todo o ecossistema cripto.
Como participante ativo desses ecossistemas, compartilho do entusiasmo. Também tenho preocupações.
O caminho da inovação é iluminado pelo potencial do blockchain, mas também é cheio de complexidades e desafios que exigem atenção.
Blockchain: uma faca de dois gumes
Como toda tecnologia emergente, o blockchain resolve certos problemas e simplifica processos difíceis.
Quando oportunidades assim aparecem, elas ajudam a sociedade a ir mais longe e a ficar mais forte, levam assistência a quem precisa e abrem caminho para novas soluções.
Tudo isso é ótimo, mas tem um preço.
Enquanto uma tecnologia amadurece, ninguém sabe ao certo aonde ela vai levar. São os builders que assumem a dianteira, experimentando e explorando essas oportunidades.
Pense na famosa bolha das pontocom. A adoção da internet cresceu rápido e, junto com essa expansão, nasceram vários negócios e soluções.
Eram os builders e exploradores daquela época. Muitos desses negócios não sobreviveram, mas, olhando para trás, dá para afirmar com certeza que os que sobreviveram mudaram a forma como vivemos hoje, transformando aquela tecnologia em parte central do nosso dia a dia.
Ecos do passado: blockchain e o próximo boom tecnológico
Mas esse não é o quadro completo. Existe outro lado, e para mim ele é a forma como as pessoas se relacionam com essa tecnologia nova.
Pegue qualquer jovem nascido depois da virada do século. Você pode assumir com segurança que ele é proficiente em usar tecnologia e a web.
Ele nasceu dentro disso, enquanto a tecnologia amadurecia e crescia ao seu redor. Agora, se fosse possível voltar ao início dos anos 2000 e entrevistar uma pessoa comum daquela época, a experiência dela seria bem diferente.
Ela provavelmente conheceria rádio e televisão e, no máximo, telefone e aparelho de fax para se comunicar. A internet, como conhecemos hoje, era algo muito novo naquele momento, e as pessoas precisaram aprender a usá-la.
Esse processo de familiarização com uma tecnologia que ainda não amadureceu não é fácil para o público geral, porque ela ainda não foi desenhada para atender esse público com uma experiência simples e segura.
Lembro de, na adolescência, aprender a usar uma conexão discada para “navegar na internet” e conversar com os amigos. O mesmo processo era estranho e assustador para os meus pais.
Na mesma velocidade em que o público aprendia a usar aquela novidade, golpistas e criminosos também aperfeiçoavam seus métodos para explorar a nova tecnologia.
A regulação levou tempo para acompanhar e entender os riscos que as pessoas enfrentam nesse novo ambiente. Hoje isso aparece em políticas de proteção de dados, em divisões cibernéticas de agências federais pelo mundo e até em guerra digital.
Hoje ainda existe muito crime e atividade maliciosa na web, mas nós, como público geral, estamos muito mais preparados para lidar com isso.
A tecnologia amadureceu e passou a oferecer um ambiente mais seguro, soluções foram construídas para proteger as pessoas, a regulação chegou para fiscalizar e impor políticas de segurança e, o mais importante, nós como público aprendemos mais sobre a tecnologia e sobre como usá-la.
Com o blockchain não é diferente
O espaço de blockchain hoje está onde a internet estava na infância: cheio de potencial e também cheio de desafios.
Estamos nesse caminho de construir maturidade, melhorar o ambiente e definir regulações e políticas, mas isso leva tempo.
Neste momento, estamos num meio-termo: muita gente tem acesso a essa tecnologia de várias formas, mas não entende o que ela significa nem como funciona. Isso faz dessas pessoas o alvo perfeito para criminosos e golpistas.
Estes não são os tokens que você procura

Como entusiasta e profissional da área, costumo circular por comunidades de blockchain em diferentes plataformas e participar das discussões.
A maioria delas é de comunidades técnicas no Discord, com outros profissionais e builders. Mas também frequento comunidades como o Reddit, onde você encontra muitos entusiastas empolgados com a tecnologia que não têm necessariamente formação técnica nem entendimento profundo de como ela funciona.
Recentemente, alguém me procurou perguntando sobre o Soroban, da Stellar, assunto que temos discutido bastante e que vem empolgando a comunidade.
A pessoa estava curiosa sobre o Soroban e seu impacto na comunidade. Então ela perguntou sobre o “preço” do Soroban e sobre como “adquirir” o ativo. Aquilo me deixou bastante confuso.
Não vou me aprofundar no tema aqui, porque já cobrimos isso em artigos anteriores, como Um guia do Soroban para definir o DeFi na rede Stellar e exemplos como Ativos que rendem na Stellar: destravando potencial com o Soroban.
Em resumo, o Soroban é uma plataforma de smart contracts construída pela rede Stellar e integrada ao protocolo dela, que permite construir e executar soluções baseadas em smart contracts dentro da Stellar. Dá para entender minha confusão: o Soroban é mais uma infraestrutura do que um ativo.
O entusiasmo cega
Seguindo a conversa, a pessoa contou que tinha visto o Soroban e investido nele pela LOBSTR, uma carteira mobile bastante conhecida do ecossistema Stellar. Essa foi a pista que faltava para eu entender o que estava acontecendo ali.
Acontece que a Stellar é uma ótima rede para tokenização de ativos.
Ela oferece um conjunto inteiro de funcionalidades voltadas para builders, que facilitam criar ativos digitais e aplicar boas práticas e mecanismos para gerenciar esses ativos com segurança dentro do ecossistema Stellar.
Isso a torna ideal para emissão de ativos e pagamentos digitais, mas um elemento central dessa equação é a confiança. Como rede pública, ela é uma infraestrutura que oferece um protocolo neutro para qualquer um disposto a construir em cima dela, assim como a rede Ethereum ou o protocolo NEAR, entre outros.
Isso é comum no espaço de blockchain e de ledgers públicos, mas é algo com que o público geral ainda não está totalmente familiarizado.
No passado, eu via com frequência pessoas tratarem a internet como uma empresa ou uma instituição que deveria ser responsabilizada por tudo o que acontecia dentro dos seus domínios.
Do mesmo jeito, as pessoas ainda estão aprendendo como o blockchain funciona e como agentes maliciosos conseguem usar essa tecnologia para aplicar golpes.
Um elemento central dos ativos na Stellar é a forma como os emissores vinculam sua identidade e divulgam informações sobre os ativos que criam.
Existe um padrão no ecossistema (SEP01) criado justamente para esse processo. Ao integrar um ativo desses aos seus serviços, os builders fazem uma análise diligente e verificam se o emissor é uma entidade confiável.
Isso costuma acontecer nos bastidores, e o público simplesmente usa o serviço sabendo que essa verificação foi feita, porque confia em quem fornece o serviço.
Voltando à LOBSTR: é uma ótima carteira e uma das melhores soluções do ecossistema. Ela integra vários serviços e funcionalidades sem atrito e entrega tudo isso ao usuário final com facilidade.
Usei essa carteira constantemente por alguns anos, mas existe um porém.
Apesar de ser uma ótima aplicação, eu diria que é uma aplicação avançada, que deve ser usada com cautela e responsabilidade. Algumas funcionalidades, como o “swap”, foram construídas com capricho para integrar todo o espaço de mercados descentralizados da Stellar e oferecer um hub central para converter ativos entre quaisquer mercados existentes na rede.
É uma ferramenta poderosa, que dá ao usuário final acesso fácil a novos instrumentos financeiros, mas também exige que ele saiba o que está fazendo e seja diligente sobre com quem interage.
Ao dar acesso a todo o espaço de mercados descentralizados, essa feature espera que o usuário final faça a própria avaliação e o dever de casa de decidir em quais ativos confia. Você já deve imaginar onde isso vai dar.
Quando aquela pessoa viu o entusiasmo e as discussões sobre o Soroban, decidiu se aprofundar e encontrar formas de participar. Foi isso que a levou a buscar por Soroban nos mercados descentralizados.
Esse projeto é legítimo? Não confie, verifique
Uma busca simples por ativos chamados “Soroban” retorna hoje mais de uma dezena de ativos diferentes, emitidos por entidades diferentes e ofertados para troca. Nenhum deles tem relação direta com a plataforma Soroban.

Podem ser negócios legítimos tentando aproveitar o entusiasmo em torno da plataforma ou simplesmente golpistas tentando faturar em cima do público geral.
O importante é que nenhum deles é apoiado pela SDF (Stellar Development Foundation) nem tem relação direta com a plataforma e seu funcionamento interno.
Que tipo de público você é?
O fato é que o blockchain ainda é uma tecnologia muito nova, e vai levar tempo até as pessoas se familiarizarem e saberem como usá-la com segurança.
A LOBSTR, neste exemplo, é uma ótima ferramenta, com uma interface simples de usar, que conecta as pessoas a toda a infraestrutura do ecossistema Stellar. Mas cabe ao usuário ser diligente e avaliar em quem confia.
É parecido com o navegador. Usamos a internet todo dia e ferramentas como o Chrome fazem tudo o que está ao alcance delas para oferecer uma experiência segura e avisar sobre os riscos. Ainda assim, você consegue acessar sites maliciosos e interagir com fontes inseguras se decidir fazer isso.
À medida que as ferramentas do ecossistema blockchain amadurecem, elas ganham cada vez mais recursos para detectar golpes com criptomoedas automaticamente ou avisar sobre riscos. Enquanto isso não acontece, o cuidado precisa vir de você.
Meus dois satoshis: construindo sua zona de conforto no blockchain
Quando estou entre amigos e na comunidade, costumo dizer para tomarem cuidado e evitarem ferramentas avançadas enquanto ainda estão construindo o entendimento de como tudo funciona.
No ecossistema Stellar, eu indicaria a essas pessoas carteiras como o Beans app e outros produtos voltados para esse tipo de público, que garantem que só serviços confiáveis e curados cheguem ao usuário.
Nada é livre de risco, mas isso garante uma camada de confiança e auditoria que evita expor você a vulnerabilidades conhecidas.
O aprendizado que eu deixo aqui é entender onde você está como público.
Ou seja, se você não está confiante no seu conhecimento sobre os aspectos técnicos e os riscos associados a uma tecnologia, a serviços e a ativos novos, tenha cuidado com o quanto você se expõe.
Procure soluções oferecidas por entidades confiáveis e voltadas para um público como você. Não pule para ferramentas e instrumentos avançados que você não entende ou cuja procedência você não consegue confirmar, porque isso deixa você vulnerável.
Enquanto adoção e regulação ainda não chegaram lá, nós, como público, somos o elemento forte que define o quanto de risco assumimos. Por isso, precisamos aprender a ser diligentes e cuidadosos na forma como usamos essa tecnologia.
Estar informado é estar seguro no blockchain
Para fechar, a promessa da tecnologia blockchain é grande e oferece mudanças profundas em vários setores.
Esse potencial, porém, vem acompanhado de desafios, incluindo o risco de golpes e exploração.
A comunidade de blockchain precisa priorizar educação, segurança e transparência para garantir uma navegação segura nesse cenário de inovação.
Com uma abordagem responsável, dá para aproveitar todo o potencial do blockchain e ao mesmo tempo se proteger das armadilhas. Vamos seguir com otimismo informado, contribuindo para um ecossistema de blockchain seguro e próspero.