Pular para o conteúdo

Estratégias de saúde mental para o trabalho remoto na pandemia

blue background with a woman inside a house working remotely, there is a virus outside
Resumo
  • O home office imposto pela pandemia difere do trabalho remoto planejado: com o distanciamento social, as interações passaram a ser mediadas por tecnologia e os limites entre trabalho, lazer e tarefas domésticas se misturaram, sobrecarregando especialmente as mulheres e aumentando estresse e autocobrança.
  • O isolamento provoca no cérebro um efeito parecido com o da fome, segundo estudo do MIT, e as incertezas do período elevam o risco de alterações de humor e sono, ansiedade, crises de pânico e depressão, o que torna o acompanhamento remoto do bem-estar um desafio para a gestão de pessoas.
  • Em junho de 2020 foi criado o grupo Better Together, baseado na terapia comunitária integrativa de Adalberto Barreto: aberto a qualquer pessoa da empresa, mediado por uma profissional de psicologia, sem caráter psicoterapêutico, onde ninguém dá conselho e todos falam em primeira pessoa, com encaminhamento a profissionais quando necessário.
  • Sugestões para a adaptação ao trabalho remoto incluem estabelecer rotina com horários definidos, fazer pausas ativas de 5 minutos a cada hora, evitar excesso de videoconferências, buscar notícias confiáveis, cultivar uma rede de apoio, reservar tempo para relaxar

A pandemia nos obrigou a viver um período de muitas mudanças na dinâmica de vida. O distanciamento social impactou quase todas as áreas do nosso cotidiano, principalmente a forma como nos relacionamos com o trabalho. O famoso home office, ou teletrabalho, que já foi considerado um privilégio ou um modelo de trabalho inovador, virou realidade para muitas empresas, especialmente no setor de TI.

Existe, porém, uma diferença grande entre adotar esse modelo como uma escolha consciente e planejada, quando ainda é possível exercer atividades sociais em outros ambientes, e o modelo imposto pela pandemia, que implica distanciamento social e acaba limitando a maior parte das interações sociais àquelas que só acontecem mediadas por tecnologia.

Mas quais são os impactos reais do trabalho remoto sobre nós?

Existem vantagens e desvantagens. Tudo depende da dinâmica e do contexto social em que cada pessoa está inserida. Muitas pessoas vivem uma rotina em que o trabalho ocupa boa parte da semana, e boa parte da necessidade de interação social é suprida nesse espaço de trabalho, com as pessoas daquele contexto.

Nesse cenário, quem mora sozinho sentiu com mais força os efeitos de não ter contato físico direto com amigos e pessoas queridas como forma de troca e afeto. O isolamento social, segundo um estudo de neurocientistas do MIT, provoca no cérebro um efeito parecido com o da fome. Em outras palavras, ficamos com fome de interação social.

A dinâmica de comunicação e interação com os times mudou de canal, de formato e até de horário. O trabalho passou a invadir espaços antes bem definidos para o lazer, como quartos, salas e ambientes ligados ao descanso. Esses espaços agora se misturam a uma rotina de produtividade e entregas. Assim como o espaço físico, o tempo dedicado ao trabalho também se mistura com outras atividades. Estamos sempre conectados. Usamos as redes sociais para trabalho e para lazer, o que torna ainda mais difícil reservar tempo para recuperar e descansar mente e corpo.

Quem tinha uma dinâmica familiar estruturada e atividades bem definidas, com tempo para levar e buscar os filhos na escola ou dividir as tarefas domésticas, se viu em uma realidade fundida, em que a escola do filho agora é em casa, a casa precisa estar limpa,  e ainda é preciso trabalhar e descansar. Os limites ficam cada vez mais difíceis de preservar, ainda mais em uma sociedade conhecida pela desigualdade de gênero em direitos e deveres, em que as mulheres são as mais afetadas e sobrecarregadas por essa grande mistura de atividades.

Além disso, a interferência de várias atividades na rotina de trabalho pode gerar um efeito emocional, por conta das cobranças e do estresse. O equilíbrio entre horas trabalhadas e esforço no trabalho ficou cada vez mais desafiador. Algumas pessoas se cobram ainda mais para bater metas e mostrar que conseguem ser produtivas mesmo em meio à adversidade.

Quais foram os impactos na relação entre empregador e empregado?

A relação de confiança entre empregado e empregador abriu espaço para mais sensibilidade nesse período. O microgerenciamento ficou mais difícil de sustentar na rotina de quem lidera e, por isso, líderes precisaram adotar outras posturas para acompanhar a produtividade e o bem-estar do time.

Agora, empregadores que querem acompanhar de perto suas equipes e dar suporte para um bom desempenho precisam ficar atentos a outros fatores que afetam esse bem-estar e essa produtividade.

Durante a pandemia, vivemos sentimentos e reações que talvez nunca tivéssemos experimentado antes. 

  • Sentimos medo de transmitir o vírus e de perder pessoas queridas;
  • Sentimos angústia e irritação diante da falta de previsão de melhora e da incerteza sobre se e quando a realidade vai voltar ao que era;
  • A tristeza de não poder aproveitar momentos com quem amamos invade o dia a dia, o que também gera irritabilidade.

Tudo isso aumenta o risco de algumas reações comportamentais, como alterações de humor e de sono, hipo ou hiperatividade e aumento da ansiedade. Essas reações podem evoluir para quadros psicológicos como ansiedade, crises de pânico, depressão e outros.

Por isso, um dos maiores desafios das áreas que cuidam de gestão de pessoas é conseguir observar a distância o bem-estar de quem trabalha na empresa e agir para reduzir esses impactos.

Como a área de gestão de pessoas pode apoiar as mudanças no modelo de trabalho?

Nesse cenário, práticas que estimulam boa comunicação e interação entre os times são essenciais.

Gestores podem manter um contato mais próximo com o time para diversificar os canais de comunicação. Alguns exemplos: chat de voz no Discord, ações de compartilhamento de conhecimento que estimulem a interação entre as pessoas, e momentos de descontração, como atividades com jogos e interações que não têm entrega ou produtividade como objetivo.

Momentos assim fortalecem o vínculo entre as pessoas, aumentam a confiança com os colegas e deixam todos mais disponíveis para falar de dificuldades e compartilhar experiências de vida.

O grupo Better Together na Cheesecake Labs

Com isso em mente, em junho de 2020 a Cheesecake Labs criou um grupo de acolhimento e troca de experiências chamado Better Together.

O grupo tem o objetivo de facilitar e acolher as experiências que as pessoas do time vêm vivendo durante a pandemia, fortalecer os vínculos entre colegas e ajudar no desenvolvimento de novos recursos de enfrentamento diante das situações de adversidade que surgiram nesse período.

A mediação do grupo é feita por mim, como profissional de psicologia, mas ele não tem caráter psicoterapêutico. Ele se baseia no modelo da terapia comunitária integrativa, criada pelo psiquiatra Adalberto Barreto, e é voltado para pessoas que se sentem sozinhas, isoladas e deprimidas. Ele permite criar vínculos e formar uma rede de apoio. Essa abordagem promove um espaço em que as pessoas descobrem quais soluções fazem mais sentido para o nosso contexto e para as nossas experiências.

É um grupo aberto, em que qualquer pessoa da empresa que se sinta à vontade pode participar quantas vezes quiser. Por isso, cada encontro tem participantes diferentes.

O grupo parte do princípio de que, quando alguém decide falar sobre algo que a aflige, sempre há outras pessoas ali que vivem ou já viveram situação parecida e que estão dispostas a compartilhar suas experiências e as estratégias que adotaram para lidar com aquilo e superar. Ninguém dá conselho, e todos falam em primeira pessoa. A premissa é que o recurso usado por uma pessoa em determinada situação pode não servir para outra em situação parecida.

A mediação dessa conversa é importante para o grupo não perder o foco, para observar as particularidades de cada participante e para perceber se alguém precisa de mais atenção ou de encaminhamento para acompanhamento psicológico. Por isso mantemos uma lista de profissionais da área, caso alguém precise.

Sugestões que podem ajudar no seu bem-estar e na adaptação ao trabalho remoto

  • Tente estabelecer uma rotina em casa, com horários definidos e limites de acesso às diferentes atividades ao longo do dia. Isso ajuda a delimitar espaço e tempo para trabalho e para lazer, evitando que os dois se misturem.
  • Faça pausas durante o trabalho. A recomendação de profissionais de saúde é de pausas de 5 minutos a cada 1 hora, e que elas sejam ativas, para estimular a movimentação do corpo.
  • Evite o excesso de videoconferências. Elas causam irritabilidade e fadiga. Tente intercalar os períodos em que você precisa ficar em chamadas de vídeo com pausas para leitura e para atividades práticas, como organizar um planner de papel ou um kanban.
  • Busque fontes de notícia confiáveis e evite se sobrecarregar. Traga seus pensamentos e suas ações para a realidade do que é possível fazer neste momento. Isso ajuda a controlar a ansiedade. Diante da dificuldade, procure ajuda de um profissional de saúde.
  • Cultive uma rede social de confiança e reserve tempo para trocar e compartilhar experiências da sua rotina.
  • Reserve um tempo para relaxar: ouça música, medite, veja filmes e séries, ou se permita não fazer nada. 
  • Foque em comportamentos preventivos e siga as orientações oficiais do Ministério da Saúde.
  • Procure se conhecer melhor, aceitar o momento que estamos vivendo e lembrar que isso vai passar.

Estamos vivendo um tempo que nos coloca em contato com coisas que nunca experimentamos antes e que desperta emoções e reações intensas. Aproveite este momento para ressignificar suas relações de trabalho e, se você estiver passando por um sofrimento intenso, procure sua rede de apoio e, principalmente, a ajuda de um profissional de psicologia ou psiquiatria.

Referências:

https://news.mit.edu/2020/hunger-social-cravings-neuroscience-1123

http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/CadAdm/article/view/53637/751375150139

https://www.qualtrics.com/blog/confronting-mental-health/

https://www.census.gov/library/stories/2020/08/parents-juggle-work-and-child-care-during-pandemic.html

https://tede2.pucsp.br/handle/handle/15496

https://www.scielosp.org/article/physis/2020.v30n2/e300214/

https://news.stanford.edu/2021/02/23/four-causes-zoom-fatigue-solutions/

http://www.saude.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2018/03/Nota-Informativa-A-Sa%C3%BAde-Mental-e-a-Pandemia-de-COVID19-poss%C3%ADveis-impactos-e-dicas-de-gerenciamento-para-a-popula%C3%A7%C3%A3o-geral.pdf