Inovação importa. Ela é determinante para o crescimento de uma organização e, por consequência, para os produtos que construímos.
Dito isso, quando o assunto é explorar novas oportunidades que podem levar à inovação, a forma como você constrói e conta essas histórias determina o sucesso (ou a falta dele). Mas por que isso não é simples? Porque somos programados com uma série de mecanismos comportamentais que nos impedem de agir. Um deles é o chamado “viés de negatividade”.
Entendendo o nosso viés
Na essência, isso significa que temos muito mais tendência a remoer o que deu errado do que a reparar no que deu certo. Esse cenário foi construído pela nossa sociedade e é intrínseco ao nosso inconsciente coletivo. Foi o que nos manteve seguros na pré-história diante do perigo, mas não é o que vai nos fazer acolher ideias novas, por exemplo, a inovação.
Isso também tem impacto direto na nossa capacidade de continuar melhorando e de levar transformação para as organizações das quais fazemos parte.
Transformação é uma das coisas mais desafiadoras que uma liderança enfrenta. Quando digo transformação, quero dizer mapear possibilidades, futuros possíveis que podemos materializar, e depois superar os obstáculos que impedem de chegar ao objetivo desejado. Na Cheesecake Labs, a transformação está em curso, o que nos leva a realinhar e melhorar tudo constantemente.
Com isso em mente, dá para transformar organizações e produtos sem transformar as pessoas e a forma como elas se conectam para construir o futuro? É aí que entra o storytelling.
Por onde começar
Eu sempre digo que, se você não sabe por onde começar, comece pelas histórias. As histórias que você conta para os seus colegas, para as suas lideranças, para você mesmo. Uma única história carrega um dos poderes mais impressionantes que existem: o poder de transformar.
Essas histórias podem responder perguntas relevantes (e estratégicas): quais são as outras possibilidades? Como é esse futuro? Que problemas você está tentando resolver? Que caminho faz mais sentido seguir para chegar ao objetivo desejado? Eu me pergunto o tempo todo: como podemos escrever histórias melhores juntos?
Uma única história tem potencial para explorar novos futuros possíveis, explicar a estratégia necessária para chegar lá e atrair outras pessoas para tornar isso real. Histórias têm o potencial de motivar uma transformação organizacional, e isso significa inovação.
Quem conta histórias com eficácia alcança o ponto de ouro da inovação: engajar as pessoas para embarcar nessa nova ideia/produto/futuro, e tudo isso é feito de forma estruturada.
Os elementos essenciais de uma narrativa estratégica
Acredito que uma boa história reúne o contexto humano (o que será feito e por quem), o propósito compartilhado (por que você quer que outras pessoas abracem essa história com você?) e aquilo que a torna única (o resultado desejado ou o futuro possível que você enxerga). Não é só o resultado que torna uma história única, mas a jornada em si.
Para mostrar como colocar isso em prática, usei episódios da série Friends como exemplo, porque é a melhor série de TV do mundo inteiro. Você também pode usar como referência este ótimo livro, além de outros frameworks.
O arco narrativo
Arco narrativo é o termo que descreve a progressão completa de uma história. Ele evoca visualmente a ideia de que toda história tem um começo relativamente calmo, um meio em que a tensão, o conflito entre personagens e o ritmo da narrativa sobem até um pico, e um fim em que o conflito se resolve.
Você provavelmente já conhece um exemplo clássico de arco narrativo: a ideia de uma startup, um começo difícil, o sucesso no fim. Isso parece uma simplificação exagerada, e é mesmo. Adicionar complexidade a um arco básico é parte do que diferencia uma história da outra, mesmo quando as duas tratam aparentemente das mesmas ideias.

No dia a dia, isso significa que posso engajar meu time em novos projetos usando o arco narrativo. Primeiro, dou informações específicas sobre nossos novos parceiros, seus interesses e seu contexto: quem são e onde estão? O que sentem em relação a esse produto? Como chegaram até nós? Em seguida, subo a história com as complicações: que problema querem resolver com esse produto? Quais dores e frustrações eles têm? Com isso em mente, chegamos ao clímax com o propósito do time, como ele pode ajudar e quais skills são necessárias para entregar um produto excelente. A ação decrescente (a resolução) é a parte da história que vamos escrever juntos.
A jornada do herói
O monomito (também chamado de jornada do herói), descrito primeiro por Joseph Campbell, é uma estrutura narrativa presente em muitos filmes e contos pelo mundo.
É a jornada aventureira e desafiadora de um herói, que sai da certeza para a incerteza e volta em segurança com uma recompensa. Para o interesse deste artigo, o “herói” pode ser uma ideia disruptiva que nasce em condições incertas como as que conhecemos (este momento da história humana é um ótimo exemplo), mas que tem o poder de trazer resultados extraordinários e confiáveis (a recompensa).
Como exemplo, uso um episódio de Friends para ilustrar a estrutura da jornada do herói:


Ficção científica
Ficção científica é uma ótima ferramenta para inspirar o pensamento sobre futuros novos e possíveis, além do impacto da tecnologia na vida das pessoas. O Vale do Silício tem uma conexão profunda com a ficção científica (o livro Fahrenheit 451, escrito em 1953, inspirou a criação dos fones de ouvido intra-auriculares).
Imagine o futuro daqui a 5 ou 10 anos. Pense em problemas reais resolvidos com tecnologia. Pense nas histórias por trás disso. Escreva sobre elas. Nesta etapa, não se prenda ao como tudo vai acontecer. Reserve um tempo só para pensar no futuro. Como descrito em “Leading Transformation“, a partir daqui uma quantidade enorme de opções vai aparecer. Depois disso, você consegue escrever uma narrativa estratégica sobre como o futuro poderia ser. Use o arco ou a jornada do herói (o usuário), com um dilema (um problema real) e uma resolução.
Dá para explorar futuros possíveis usando a força da ficção científica. Ela pode fazer parte do processo de criação de produto. Na ficção científica não existem limites: pensar fora da caixa não é só permitido, é incentivado. Você pode criar cenários pequenos ou dramas maiores para integrar o produto que está construindo a uma narrativa envolvente e alinhada ao propósito dele.
Qual é o seu cenário no tempo? O futuro, uma linha do tempo alternativa ou um passado histórico que contraria o registro conhecido? Onde a história acontece? No espaço, em outros mundos ou em versões alternativas da Terra? Quais são os elementos narrativos? Uma nova tecnologia, um novo produto, um novo princípio científico ou um novo sistema político? Essas são algumas das perguntas para começar a criar uma narrativa de ficção científica. Explore. Sonhe. Descubra.
Storytelling na gestão de projetos
Considero fundamental questionar como estamos contando as histórias sobre nossos esforços de inovação. Precisamos reconhecer o poder das histórias e aceitar que ele é determinante para esses esforços darem certo.
Na prática, como gerente de projetos na Cheesecake Labs, me desafio o tempo todo a considerar as perspectivas únicas do time de forma positiva, usando essas ferramentas (ficção científica, jornada do herói, arco narrativo) conforme faz sentido. É importante manter uma conversa contínua sobre os produtos que construímos: buscamos sempre fazer as perguntas certas e respondê-las juntos, para construir com sentido e agregar valor de verdade aos negócios dos nossos parceiros e aos Cakers. Acreditamos nas histórias que escrevemos enquanto desenvolvemos produtos, sempre com a vontade de ajudar a construir produtos de tecnologia bem-sucedidos, que resolvam problemas reais.
Trabalhar juntos através das histórias, da melhor forma possível: é assim que colocamos inovação na mesa.
